Quando eles descobriram que o mundo acabaria, não contaram a ela. Não apenas por ela ser pequena demais, mas porque sua pequeneza superava a das outras crianças: algo sobre ter demorado demais a nascer, ela havia levado muito tempo para sair de dentro da mãe e tinha acabado assim meio estragada, como uma daquelas frutas maduras que caem já tão pesadas que estouram no chão. Só que ninguém a achava madura, muito pelo contrário. Se ela fosse fruta, seria verde. Verde cor de semente quando começa a virar flor. Mas não era flor, e se fosse, para que ia servir? As flores só eram dadas mortas. Gostava de roubar as flores do vizinho, montando buquês de uma celebração imaginária, mas descobriu que matava as flores quando as arrancava do pé.
A essa altura, o mundo já tinha dia marcado. Não com tanta exatidão, porque as coisas do espaço eram todas incertas, e ela vivia num planeta que não era mais do que uma bola no meio do vazio. O mundo ia acabar em algum momento da sua existência, de forma que haviam cancelado o futuro. Os adultos nunca falavam sobre isso com ela, mas ela já sentia o caos: desde o começo não havia conseguido apreender o tempo, não lia as horas nos ponteiros e estava sempre as perdendo. Não soubera contar os meses certos na barriga e não sabia aprender as coisas certas da idade. Por isso mesmo, quando as pessoas jovens foram mandadas para as estrelas, em algum lugar do espaço que seria seguro, ela não foi incluída. Era bem vagamente que ela sabia dessas coisas todas; em algum momento algum sussurro de mamãe indicava algo e os silêncios de papai confirmavam a ideia. Ao contrário dos outros, ela sabia ouvir silêncios. Mas como não havia palavras para explicá-los, ninguém entendia. Ela gostava de palavras, principalmente quando elas não diziam nada. Era nesse nada que ela se encontrava – entendia o nada melhor do que tudo. Desde que as pessoas haviam descoberto que o mundo iria acabar, no entanto, o nada era algo assustador demais. Era muito difícil aprender o tempo quando faltava um pedaço dele, ela falava, mas ninguém ouvia isso também.
Quando ela descobriu que o mundo acabaria, contou para todo mundo. Gritou na praça da igreja que tudo iria sumir, gritou tanto que os adultos ficaram todos calados, porque a primeira coisa a desaparecer era sempre a voz deles. Terminaram de arrastá-la até a igreja de Santa Agnes, a santa virgem, e jogaram água benta sobre a sua cabeça como se isso fosse acalmá-la. Ela também era Agnes, também era virgem e, agora, também era santa. Olhou para o altar onde a figura de uma jovem carregando um carneirinho olhava para o céu, e se exaltou de novo: ela sabia, ela sabia, ela era a única pessoa que sabia, gritou, mas ninguém perguntou o quê.
O que acontecia com o santos quando eles morriam? perguntou, do alto do telhado. Desde que conseguia lembrar, seu quarto fora o mais alto da casa, ali naquele andar que seria o sótão, mas ela gostava de pensar que, na verdade, os pais a haviam colocado ali porque era o mais perto das estrelas que ela, que não tinha ido com os outros, iria chegar. Fazia muitas perguntas às estrelas onde deveria estar, se tivesse sido mais rápida e feito mais por merecer, porque de lá elas tinham o tempo inteiro e deveriam saber. Sabia que os mortos iam para o céu; nunca ouviu falar de inferno porque àquela altura ele também havia sido cancelado, era um assunto difícil demais. Então, pensava, os santos eram os primeiros astronautas. Ou melhor, todos os jovens que haviam escapado eram santos! Havia chegado atrasada para a eucaristia, perdera o sacramento com as outras crianças. A santidade não havia pegado nela. E chegara possuída no dia, gritando pelos cotovelos, sabendo muito mais do que as crianças que seriam salvas e do que os adultos que ficariam para trás. Deviam ter-lhe feito um exorcismo – era isso. Nada de bençãos. Agora o mundo ia acabar e ela não sabia se era ainda criança, porque as crianças são sempre cheias de futuro. Havia muito tempo desde que não recebera a benção, desde aquele fatídico dia na igreja, e sabia que a partir dali já não tinha futuro. Devia ser uma velha então, com a certeza de que a morte chegaria em breve, catando cada minuto com um martírio com nome de alívio. Mas não se sentia velha. Ninguém a chamaria de mulher, muito menos ela mesma; não sabia catar os minutos e nem os anos que haviam esticado os seus braços e pernas com intermitências crueis. É que as carnes haviam rebentado de uma maneira estranha, sujando os vestidos brancos de menina de um sangue dolorido. E mamãe brigara quando viu, e isso foi antes, logo antes do dia da igreja. A eucaristia era coisa de criança pequena e, embora ela fosse bem pequena, era grande demais para todas as outras crianças.
O tempo está todo errado, disse mamãe.
Tudo que tinha números tendia a falhar para ela. Sim, era de uma pequeneza tão grande que não conseguia sequer decorar a própria altura. Ela parou de crescer bem rápido, para se equiparar às outras crianças, mas, aí, elas começaram a espichar. E não pararam.
Sim, ela odiava os números. Não sabia ver as horas. Por que o relógio só ia até o 12? E dentro do 6 havia 30, e entre o 2 e o 3 havia o 11 e o 12 e, na verdade, não havia nada lá. Gostava das letras, que diziam alguma coisa. Dava para ler as letras, o que era muito mais útil. Mas os números eram uma imitação muito feia delas, e só tinham nome se você os escrevesse por extenso, que era lidar com letras, aí sim se dizia algo. Os romanos usavam letras que você contava até elas formarem desenhos grandes demais, e os romanos haviam tido um império que também acabara. Depois deles, vieram os santos, que morreram para escapar da Terra. Como os romanos, ela só sabia usar letras; não iria para o céu. Se fosse, trataria de consertar a lua, que estava quebrada.
Saber que a lua estava quebrada era também como escutar o silêncio. Não sabia ao certo se todas as suas habilidades eram inúteis ou se eram os outros que não podiam entender. Talvez aquilo tivesse algo a ver com o fim do mundo, mas não era algo de que se falasse. Gostavam de contabilizar todas as coisas, mas não conseguiam perceber que, daquela distância, a lua se partira em três grandes pedaços, alguns fragmentos a mais nos dias em que estava mais brilhante, mudando de formato cada vez que crescia, minguava e enchia, até quando a lua era nova ela ainda conseguia adivinhar as rachaduras debaixo da sombra, e, assim como ela, a lua era nova mas estava esgarçada, quebrada, gasta num tempo disforme e difícil de entender. Tentara contar aos adultos que o problema estava lá, olhem, a lua, as marés, tudo vai quebrar começando pela casca, então vem o fundo e arrasta tudo, na bíblia era Deus, lá em cima, que rompia o céu até o mundo inteiro estar submerso.
Ela não respirou, eles diziam, ela não respirou por tempo demais, estava toda roxinha quando nasceu, quase que não nasce. Foi apressadinha, quase me partiu os quartos, mas na hora não quis sair, eu quase morro. Mamãe gostava de parecer adorável do lado da cruz, e parecia, Agnes achava mamãe a mais linda das mulheres. E do altar o menino, não, o homem Jesus era nu e sangrento como um bebê nascendo, mas Jesus não conseguiria nascer porque era grande demais, mas ressuscitou. Sobre ressuscitar ela só sabia que também conseguira, quando a mãe estava mais empolgada dizia mesmo que ela chegara a morrer, não havia respirado por muito, muito tempo. Quanto mais ela ficasse no telhado e roubasse as flores do vizinho e depois continuasse usando elas mortas na cabeça, mais mamãe se empolgava, explicando que a sua filha não viria porque era muito especial, ah, ela gostava dessa palavra, era especial.
O padre também havia dito que seria uma ocasião especial, porque o tempo estava errado. Agnes tremeu e tremeu porque até mesmo na casa de Deus ela conseguira errar o tempo, Pai Nosso de Cada Dia, Pão Nosso de Cada dia, que heresia botar o pai no lugar do pão, ela sempre errava as palavras mas só nas partes que contavam tempo, o tempo tentara mesmo lhe matar ou era ela que era burra demais? Lá do alto a cruz era tão alta, ela tão pequena, parecia um ponteiro gigante, não conseguia ver a aresta de cima, o ponteiro maior era da hora ou dos segundos, o da direita os minutos, ou o da esquerda? E do lado de fora a igreja tinha um relógio enorme, e sempre que ele batia numa certa hora os sinos gritavam, era a hora da Ave Maria, ah não, ela havia rezado a prece errada. Era a hora da Ave Maria e os sinos vibravam lá de cima, fazendo o ponteiro gigante da cruz se mexer, bling blong de fim do mundo, é agora, ela pensou, mas sempre errava o tempo. Então o padre a chamou para o fundo da sala, onde ficava o confessionário, e ela que já ouvira falar dessa parte só conseguiu tremer, e pediu perdão porque por um momento desejou mesmo que o mundo acabasse.
Passou muito tempo calada dentro da cabine. Talvez o padre soubesse ouvir o silêncio e entendesse. Mas não sabia, e mandou ela começar. Como explicar que errara o tempo? Disse assim mesmo. O homem não entendeu, e ela repetiu porque achou que da sua barreira trançada não dava para ouvir direito. Errou o tempo de quê, menina? De tudo. Todo o tempo. E lembrou: quase quebrei os quartos da minha mãe e não respirei. Eu demorei demais. Padre, perdão, eu me acho especial.
O rosto do padre estava partido que nem a lua, em vários pedacinhos, entre os buracos da treliça. Todos os pedaços dele disseram que Deus a abençoasse, e ela não entendeu se era uma uma ordem ou uma sugestão. Ele a disse para rezar apenas uma Ave-Maria e um Pão-Nosso, quer dizer, um Pai-Nosso, ali debaixo do ponteiro gigante que tremia junto com o rosto de Santa Agnes e seu carneirinho que nunca cresceu. E foi só quando estava ajoelhada que lembrou. Lembrou do que só ela sabia, lembrou da lua partida lá em cima exatamente antes da hora da Ave-Maria, a lua quebrou em três pedaços e ela gritou, gritou, gritou tanto mas ninguém a ouviu. Havia esquecido de dizer pro padre que estava todo quebradinho na sua treliça, mas o padre devia saber, pensou, o padre sabe de Deus lá em cima e do dilúvio e do fim do mundo. Talvez, quem sabe, pudessem fazer uma arca? Uma arca que pudesse carregar toda a vida que não cabia nas estrelas. Redonda e quente, com os carneirinhos de Santa Agnes, Santa Agnes que também via a lua quebrada porque olhava para o céu. Será que era isso que era ser Agnes? Ter esse nome todo esquisito, saber das coisas que ninguém sabe, morrer virgem e escutar silêncios? Rezou três ave-marias e três pai-nossos, para garantir. Um para cada pedaço da lua, talvez assim ela sarava.
Houve bastante tempo para toda aquela prece, agora era o padre que errava o tempo e se demorava demais, e no entanto aquele silêncio podia estar dizendo alguma coisa, ah não, ela ia rezar mais. Quando finalmente chegou, carregava uma bandeja com um único biscoitinho claro, uma coisinha plana e pálida que parecia desaparecer sobre a toalha branca da sacristia. Então esfregaram mais água na sua testa, deixando uma gota escorrer sobre o seu olho. Agnes piscou e foi como se chorasse uma única lágrima. Lágrima doída, que diabo de água benta era aquela assim tão gelada, ai meu deus a heresia de falar em diabo, mas papai falava sempre, ah não, errava de novo. O padre meteu a hóstia sobre a mão dela, ela que agora só tinha um olho, nem conseguiu ver quando ele a mandou estender a palma, então a puxou assim mesmo. “Recebe o corpo de Cristo” cuspiu, estava com pressa. Mas a benção do padre ardia, irritando a sua íris de menina esconjurada, havia algo de dilúvio naquela água vazada que embaralhava seus cílios, empurrando-os para dentro, arranhando a retina, afogando o escuro das pálpebras. Tentou desvendar as vistas do objeto na mão, uma esfera de algo tão branco como a lua. E compreendeu, no silêncio das descobertas fatais, que não era a única que sabia, não, não era a única que via.
“Coma” insistiu o padre, do alto da sua roupa escura. Não era como os outros homens que usavam calças normais, estava mais para um vestido ou uma capa toda preta. Como os bruxos dos desenhos, ou as viúvas assustadoras que viviam nos cemitérios. Não que ela já tivesse ido ao cemitério, mas uma velha dessas já havia aparecido na casa do vizinho, e ele arrancara sozinho um punhado daquelas flores para ela. Ficava feio matar tantas flores assim de uma vez, e Agnes ficou com medo. Lá debaixo, na varanda, mamãe lamentara como uma boa mexeriqueira que era uma pena, o marido morrera, coitada, mas é melhor assim, já era um vegetal. Do telhado, a menina estremeceu pensando que um homem podia virar uma planta assim, e foi colhido…foi colhido e morreu, provavelmente foi isso que aconteceu mas era claro que isso não tinha acontecido, como entendeu mais tarde. Mas e se arrancavam um pedaço da lua, e se tivesse sido isso que tinha acontecido? Morria. Mesmo se estava quebrada talvez sarasse, o que não se pode é colher o que está no pé. Olhou para a hóstia e a reconheceu, pedacinho colhido da lua.
Recebe o corpo de Cristo, que está morto, que está no céu, Pai Nosso, Pão Nosso…e a lua lá em cima rebentada, arrancaram tantos pedaços dela como aquele, ah meu deus, era por isso que a lua havia quebrado, e todos aqueles padres e seus antecessores eram cúmplices do mesmo crime, e todas aquelas gerações de crianças que não entendiam que essa antropofagia milenar era o caminho do fim, e engoliam, e devoravam a lua partida. O mundo submerso de água benta através dos seus olhos brilhava, queimando, a hóstia lançando raios celestes, o rosto de Santa Agnes molhado de lágrimas, os lábios do padre curvando-se num arco sinistro, cruel, cruel. “Coma” ordenou, impaciente para que o rito se fizesse. Ela cravou os dentes, forçando-os tanto que as carnes do rosto doeram.
Numa urgência colérica, o homem empurrou os dedos da menina nos lábios, forçando a entrada do pecado na sua purificação. Agnes chorou lágrimas de verdade como em todos os milagres. E quase mordeu a pontinha do dedo do padre que também acabou invadindo a sua boca, e foi só na beirada mas era como se sentisse na goela, fundo e mais fundo até encaixar a hóstia nas suas entranhas, rompendo a pele das suas entranhas, e aí talvez ela chorasse sangue, canonizando-se no milagre de todas as mulheres, que era sangrar. Agora um pedaço partido da lua descia pela sua garganta e logo estaria no seu ventre. Ela tremeu até as pernas falharem, tropeçando no próprio corpo, e então o mundo inteiro girou ou ela toda girou porque agora era em parte um satélite, e, antes que tudo ficasse escuro como nas novas luas, Santa Agnes a olhou como se não olhasse apenas para o céu, e ela entendeu, então, que finalmente estava lá no alto. Desfaleceu em solo sagrado e, naquela noite, teve um sonho proibido.
Tantos anos depois, Agnes sabia que errara a conta dos meses. Seu filho seria como ela, demorando demais para nascer, apegado às suas pernas que nunca se abriam para pari-lo, sufocado na própria existência para que pudesse ressuscitar mais bonito, como seria santo e mágico e grande se não morresse primeiro, como estaria acima do tempo, ali onde era mais perto das estrelas, se não morresse primeiro? As chuvas a haviam avisado do fim, fazendo os adultos tremerem em frente às janelas, mas ela amava as chuvas porque cada gota vinha carregada de pó da lua, cada pedaço vinha carregado da sua semente, e ela girava e girava no quintal porque quando estivesse cheia o suficiente chegaria a hora, e estava perto, sim, o começo estava perto. Na véspera da lua nova também choveu, e ela foi roubar as flores do vizinho que estavam afogadas, e dormiu com algumas e comeu outras, pois queria que seu filho conhecesse as flores e tivesse flores quando nascesse. Os adultos não entenderiam que ela estava grávida como ninguém também entendeu que Maria estivera, só depois que seu filho morreu, e ressuscitou, e aí todo mundo entendeu que ela era santa e ela foi para o céu e ganhou anjos e um manto nas nuvens. Ela não seria a primeira astronauta, mas chegaria nas estrelas para consertar a lua.
Quando a terra começou a tremer, mamãe desatou a chorar e se agarrou na cruz como se esperasse que a pregassem ali. Agnes subiu no telhado com as cólicas do fim, caindo nas telhas porque o mundo se movendo doía muito, e naquela noite as estrelas brilhavam como nunca porque a lua estava escondida, uma esfera de trevas vazias onde um mundo inteiro caberia. Então a menina abriu as pernas, chorando com a força, as flores já murchas caindo da sua coroa feita de terra, os olhos molhados encarando o firmamento, sempre olhando para cima, acima do tempo, acima da morte.
No auge do fim, ela pariu um mundo inteiro.
E então tudo ressuscitou, novo e bonito, inclusive a lua. Dizem que quando papai e mamãe a encontraram no jardim, escoando do telhado com a água das calhas, ela tinha as pernas vermelhas do sangue de um corpo inteiro, e as flores mortas da sua coroa estavam todas de pé nos cabelos que, mesmo verdes de lodo, cheiravam tão doces quanto mel.

Maria Luiza Artese nasceu em 1992 no Rio de Janeiro, mas saiu da cidade tão cedo que não ousa se chamar carioca. Viveu em Salvador antes de morar em Fortaleza, tendo o oceano como único ponto fixo. Decidiu ser escritora aos 12 anos, vencendo diversos concursos de conto e poesia na escola, e escreveu um pequeno livro de poemas épicos aos 16, mas prefere que estes permaneçam aventurando-se na gaveta. Foi colaboradora do portal Homo Literatus, publicou o romance Olhos de Oceano (2014) e participou de diversas coletâneas de contos e poesia, como O Corvo (Empíreo, 2015), Farol: Contos do Ateliê de Narrativas de Socorro Acioli (Moinhos, 2019), Um Fragmento Chamado Vida (Editora Modo, 2019) e Antologia Poética Literatura Br (2021). Colaborou para jornais e revistas literários como o RelevO e a Para Mamíferos, e aguarda até hoje pelo seu diploma honorário de graduanda em Psicologia, Moda e Letras, que cursou até concluir, finalmente, seu bacharelado em Jornalismo. É autora do romance A História Quebrada da Completude (Casa Philos, 2025) e participou da programação da Casa Philos na Flip 2023, como autora convidada na mesa A Fantástica Fábrica de Literatura.